terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sonetos do Regresso .





Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.


Acordar, acender
o rápido lampejo
na água escusa onde rola submersa
como o lodo no Tejo
a vida informe, peso dúbio
desse cardume denso ou leve
que nasce em mim para morrer
no mar da noite breve;
dormir o pobre sono
dos barbitúricos piedosos
e acordar, acender
os tojos caudalosos
nesta areia lunar
ou, charcos, nunca mais voltar.

Carlos de Oliveira.

3 comentários:

  1. Dos poetas muito pouco conhecidos Carlos de Oliveira é/foi um grande manejador das palavras para fazer delas... poesia.

    Obrigada por trazê-lo aqui.
    Beijinho

    Deixo um outro poema dele. Um soneto de nome em palavras meio de mágoa meio de revolta, parece que até de esperança se assim o quisermos entender.

    "Soneto

    Acusam-me de mágoa e desalento,
    como se toda a pena dos meus versos
    não fosse carne vossa, homens dispersos,
    e a minha dor a tua, pensamento.

    Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
    quando a luz que não nego abrir o escuro
    da noite que nos cerca como um muro,
    e chegares a teus reinos, alegria.

    Entretanto, deixai que me não cale:
    até que o muro fenda, a treva estale,
    seja a tristeza o vinho da vingança.

    A minha voz de morte é a voz da luta:
    se quem confia a própria dor perscruta,
    maior glória tem em ter esperança."

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  2. Este poema fui buscar ao TRIPLOV http://www.triplov.com/

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