
Deve ser tão bom ser alegre, ser feliz, não é verdade? Ter a alma quente como o estofo de um ninho, ser pequenino em tudo até nos desejos, que bom deve ser, não deve? Os corações pequeninos, os modestos, são sempre tão bondosos, tão quentes! O meu anda à solta, tão grande, tão ambicioso, tem sempre frio, está sempre só... Ninguém sabe andar com ele! E nota, minha Júlia, que eu não sou como muitas mulheres que querem ser tristes, que só se encontram bem na solidão, que procuram a paz, o silêncio e a indiferença de todos; que cultivam no peito com extremos de amor todas as saudades, que acariciam e albergam todas as dores! Eu não, eu expulso, desesperada, todas as lágrimas, eu procuro aquecer-me a todos os risos, comprimo sempre o coração para o fazer pequenino, estendo os ouvidos a todas as canções, olho ao longe, de olhos muito abertos, todos os céus.
E é sempre em vão! E os risos calam-se quando eu quero ouvir, e os meus pobres olhos tristes cegam-se a todas as claridades. Mas agito sempre os guizos, faço sempre barulho, um barulho infernal cheio de vida, de alegria, imito todos os risos e cá dentro é noite... e cumprimentam-me todos pelo meu génio alegre e «divertido»... Tem graça, pois não tem, minha Júlia? Se soubessem como sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim! Assim sou... muito sincera, de uma franqueza que chega muitas vezes à brutalidade (dizem os que me conhecem muito bem) e sou... extremamente alegre, não há tristezas que me cheguem nem venturas que me fujam!
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)"
Esta senhora, caríssimo, tinha uma profunda depressão, lá isso tinha. Antes os seus ensaios poéticos que esta prosa deprimida de quem acha que ser poeta é ser mais alto
ResponderEliminarQue confusa essa alma feminina!
ResponderEliminarComo a maioria...rs
beijos
Não penso que as «almas» femininas sejam confusas, nem quis dizer tal coisa em relação a Florbela. Aliás, penso que as mulheres, em geral, são ou podem ser tão confusas como os homens. Não creio, de modo nenhum, que a confusão, seja caracteristíca, prória da pessoa feminina. De todo!
ResponderEliminarSó quis dizer que não tenho grande vínculo à poesia de Florbela. Nem a acho confusa, penso-a, deprimente e até bipolar, aliás, isso é patente nas circunstâncias em que pôs fim à própria vida.
Foi, basicamente, o que quis dizer.
A própria Florbela diz, enquanto publicava seu último livro ‘Reliquiae’ – 1931, que quase sempre sentia-se deprimida, 'com uma doença dos nervos', fumando em excesso e emagrecendo sensivelmente.
ResponderEliminarDeprimida ou confusa, foi uma das mais importantes poetas, desnudando sua própria alma e seus problemas existenciais. Trouxe o sofrimento e desvendou a alma humana em seus poemas.
Qualquer texto poético de Florbela emociona, pois é revelador.
bjs.
Tais luso