domingo, 9 de maio de 2010

Imperdível.


Lisboa não tem estes defeitos da luz : é serena,
imperturbável, silenciosa. Quer a sua inviolabilidade,
evita as feridas terríveis. Tem a sensatez,
a prudência, a economia, o medo. Não
quer alumiar, para não lutar; não quer pensar,
para não sofrer. Não quer criar, pensar, apostolar,
criticar. Escuta e aplaude toda a voz, ou
sejam as imprecações de Danton, ou os versos do
poeta Nero. As ondas que solucem, as florestas
que se lamentem! Ela tem o riso radioso e
sereno.
Sente-se abundante, gorda, coberta de luz.
Sente-se protegida, livre, caiada e fresca. Não
tem de catar as suas misérias, nem de amparar
o pau das forcas: por isso, comenta Sancho
Pança. Não tem de construir a catedral das
ideias, nem de compor a sinfonia da alma: por
isso, escuta os melros nas várzeas, e reza as Ave-
-Marias. Paris, Londres, Nova Iorque, Berlim,
suam e trabalham, em espírito. Ela não tem que
semear: por isso, ressona ao sol.

Âs vezes, porém, comete o mal, enterrando
ideias. Onde? Na escuridão, no silêncio, no desprezo.
Lisboa é um pouco coveira de almas!
Como Roma, ela tem as sete colinas; como
Atenas, tem um céu tão transparente que poderia
viver nele o povo dos deuses; como Tiro,
é aventureira do mar; €omo Jerusalém, crucifica
os que lhe querem dar uma alma. Todavia,
Lisboa o que faz? Come.
Come, ao cair da tarde, sem testemunhas
impiedosas, quando sabe que os astros vêm longe,
que as asas sonham com o vento, que os olhos
das flores se fecham de sono. Deus não vê, da
sua varanda de sol, que, para esta velha cidade,
heróica e legendária, que nos seus velhos dias
tomou o pecado da gula, o abdómen é uma realidade
livrei Até ali, durante o dia, os seus cabelos
caíam como ramos de salgueiros, as suas faces
estavam amareladas, dos seus olhos chovia dor;
ainda não tinha comido! Depois, à noite, quando
sai do alimento como duma vitória, os olhares
são gritos de luz, os cabelos plumas gloriosas, o
peito arca de ideais: comeu!


Eça de Queiroz in Prosas bárbaras.

11 comentários:

  1. OLá Manuel,
    Eça de Queiroz foi um prosador absolutamente fora de série, toda a sua escrita é um dislumbre.
    Gostei muito de ler este texto, que ele escreveu sobre Lisboa, a sua forma pessoal de a ver, eivada com a grande cultura que tinha.
    Beijinhos,
    Manú

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  2. Bem lhe disse, caríssimo
    o que faz falta
    é ler o Eça.

    Ontem, como hoje
    Lisboa come e... dorme
    «Coveira de almas»,
    carpideira de Atenas
    amante dos que ressonam ao sol
    e dos retóricos das almas
    se ao menos
    morressem os Sancho Pança
    havia Lisboa
    de semear ideias
    e sofrer por tanto pensar.

    Nosso Senhor
    acompanhe Sua Santidade
    que muita felicidade
    esperança, paz, serenidade, comoção e alegria
    trará ao coração de Lisboa
    e... que ganhe o Sporting de Braga.
    Aleluia, Senhor

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  3. Bela e intensa transcrição,de Eça de Queiroz,meu bom Manuel,para se ler,reler e sorver!

    um dia de domingo pleno,para voce e os seus mais estimados!

    viva La Vida

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  4. Amigo, Eça é sempre atual é o que digo sempre...parece que escreveu isso ontem , pela manhã...e Lisboa, ou melhor, Portugal, é como o Brasil, basta -se trocar os nomes...beijos.

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  5. Um texto lindo. Eça é sempre brilhante.
    beijos

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  6. Olá Manuel

    Achei o texto muito interessante.

    Gostei sobretudo das seguintes expressões:

    ... As ondas que solucem, as florestas
    que se lamentem! Ela tem o riso radioso esereno.


    ...que os olhos das flores se fecham de sono.

    ... por isso, escuta os melros nas várzeas,

    ... os seus cabelos
    caíam como ramos de salgueiros,

    ...as suas faces
    estavam amareladas, dos seus olhos chovia dor.

    Um abraço e uma boa noite

    viviana

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  7. Manuel, Lisboa e o resto do País está em festa.
    Ganhou o melhor.

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  8. Caro anónimo eu pertenço ao outo lado,sou verde,no entanto não sou empalado,ganhou quem jogou melhor e quem mais regular foi.Sendo assim,só tenho que me render ao magnífico futebol que foi praticado pelo slb.

    Saudações leoninas.

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  9. Render?
    Não se renda assim...
    A festa [já me doem os ouvidos de tanta buzina e foguete]é do tipo daquela outra impotência de que falava Almada Negreiros; enganou-se o Almada, porquanto no sujeito de tal impotência.
    Por outro lado, esta festa espelha (reflecte) a ironia inteligente de Eça, no texto transcrito.
    Comem, dormem, festejam... não sei quem fará andar o país, amanhã.









    ok,ok, já fui.............

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  10. Oi, Manuel

    Parabéns pelo seu bom gosto.
    Os textos que escolhes são belíssimos no ritmo, no estilo e no sonhar.

    boa semana

    beijos

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  11. Estou morta de saudades dessa terrinha linda, breve voltarei para curtir cada pedaçinho.

    bjss querido Manuel

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