Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.
Vergílio Ferreira, in 'Para Sempre'
Manuel um lindo Domingo pra vc!!
ResponderEliminarbeeeijos.
Hoje descobri que não só as Cartas de Neruda não são ridículas. Obrigada.
ResponderEliminarDe repente, as palavras de "Para Sempre" fizeram-me pensar que tenho de voltar a ler, com urgência, este livro.
ResponderEliminarObrigada.
Bom Domingo.
Beijo
A palavra e sua força, sempe.
ResponderEliminarAbraços!
De Neruda a Vergílio impera o AMOR...para sempre!
ResponderEliminarBeijuuss, amado, n.a.
Dá pra sentir realmente quando se lê a intensidade desse texto! Esgota a quem de ouve, mais preenche a quem se lê, abraços!
ResponderEliminarLER E RELER POST TUO,MON AMIE ESCRIBA,É CONTUNDENTEMENTE , SE REFAZER IN PERSONA!MERCI MONSIEUER!
ResponderEliminarVIVA LA VIE
Dizer Eu te amo e sempre muito perigoso, e nao poder voltar atras, e
ResponderEliminarmergulhar no fundo de um oceano escuro...melhor refletir...bem melhor, se ainda der tempo...se ainda for tempo...
Bom dia!
Um texto de poeta e lindo, muito lindo mesmo. Uma excelente escolha amigo.
ResponderEliminarBom domingo.
beijos
Neruda sempre Neruda...
ResponderEliminarbom domigo pra ti também amiga poeta
bj
lu
Eis a força da pequena frae " Eu te amo".
ResponderEliminarO amor deve ser sempre lindo.
Meu querido Manuel
ResponderEliminarUm texto muito intenso e profundo de Vergílio Ferreira...o amor sempre.
Adorei e deixo um beijinho
Sonhadora
Manuel, meu querido amigo
ResponderEliminarQuanta sensibilidade tiveste para selecionar este texto encantador e dividì-lo conosco!
Uma lindeza, para ser lida e relida muitas vezes...
Muito, muito grata!
Forte abraço.