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domingo, 10 de maio de 2009
Como Nasrudin criou a verdade.

— As leis não fazem com que as pessoas fiquem melhores — disse Nasrudin ao Rei. — Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.
O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade — e assim o faria.
O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que por ali passassem. Um edital fora imediatamente publicado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforcado."
Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar a ponte.
— Onde o senhor pensa que vai? — perguntou o Chefe da Guarda.
— Estou a caminho da forca — respondeu Nasradin, calmamente.
— Não acredito no que está dizendo!
— Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.
— Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!
— Isso mesmo - respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. — Agora vocês já sabem o que é a verdade: é apenas a sua verdade.
Nasrudin
(Khawajah Nasr Al-Din)
Eterna partida.

Longe na bruma dum tempo que passa
e não se percebe se é ou já foi
eu vejo-te aos poucos voar para fora
dum sonho secreto que amámos os dois...
Mas voa, avezinha, levanta-te agora,
desdobra os teus sonhos como asas de vento!
Bebe o ar alto, faz-te condor
sem um lamento, sem um momento
em que olhes de volta e me vejas a dor
de te ver partir além-fantasia
que chega ao seu fim...
de te ver fugir da vida vazia
que fica comigo
p' ra justo castigo
de te amar assim...
Foste musa, poesia, aurora e fragrância
Deusa pagã, virgem, irmã,
altar ritual de transes de amor...
e dor... também dor,
qual luz de mil sóis de infinito calor
que vivi e sofri, que te dei e me deste
em mergulhos perdidos no fundo de nós.
Foste o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste,
a droga que encheu o meu sangue de vida
segredada a sós,
sussurrada a dois
e que eu sempre soube dever aprender
a ter de perder...
um dia... depois...
e sempre depois,
na bruma dum sonho que eu queria sem fim
mas que só podia
exIstir sem mIm!...
Foram dias e noites e meses e anos
contigo em segredo a encher-me o vazio
do saco fechado deste viver!
...mas nada mudou,
anda cá, anda ver:
os olhos cansados que embalam futuros
de incerto horizonte do vácuo que sou
mantêm fiéis a promessa perene
que fiz em silêncio,
de te serem puros,
de te amarem sempre!
Nada mudou!
Nem em mim nem em nós.
só mudaste tu, como tinha de ser,
e mesmo sem querer, ficámos mais sós...
Vou partir p'ra bem longe da dor que há em mim
e saber acordar de novo sozinho.
Vou fazer assim em defesa do ninho
a que tu tens direito com alguém que o mereça...
...mas antes que esqueça, porque isso não posso,
vou guardar tudo aquilo que um dia foi nosso
num canto secreto do meu coração
que, queiras ou não, será sempre teu!
Aí, por mais voltas que o destino invente,
Vives tu, meu amor, eternamente!
Pedro Laranjeira
sábado, 9 de maio de 2009
Queremos Homens Completos ou Meros Cidadãos?

A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.
(Huxley, Aldous )
Perdoa este amor

perdoa-me este vento no rosto
só por dizer o teu nome
esta forma imoderada de pousar-te no corpo
e íbis nidificar em teus seios
redondos e suaves como mundos imaginados
perdoa a riqueza deste amor
sem sedas nem brocados
a fragilidade deste mundo sem orientes
nem senhas nem tratados
e esta resma de escritos imperfeitos
em que invariavelmente falo de ti
mesmo quando não é de ti que falo
quando disfarço o teu nome sob a capa do mar
quando desfolho o teu corpo crisálida
em momentos só meus
e vejo emergir mariposas de toucados ancestrais
quando digo de «a» a «z» o que me vem escrito na alma
e grito que é vazio
(só vazio)
o alfabeto das coisas
que em teu nome não digo
e nego que tu existes
que te sonho sequer
perdoa tudo isto amor
porque homem e mulher que sejamos
somos só destinos anónimos
.............................distantes
de chegada
........... e de partida.
(Jorge Casimiro)
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Construir em Vez de Combater.

Creio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, optimista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados futuros. O mesmo terá já dado um grande passo para impedir os ataques, quando aceitar que só puderam existir porque a sua acção não foi o que deveria ter sido; quando se lembrar ainda de que toda a sua coragem se não deve empregar a combater, mas a construir.
Agostinho da Silva
Tempo emaranhado.

O tempo é uma corda esticada
Onde, lúgubres, se tangem os gemidos da minha alma.
O tempo é uma grande pedra a ser empurrada
Até ao cume do dia, mas o curto descanso do sono
Fá-Ia rolar de novo até à base da dormência.
O tempo é um ralo, onde se sorvem os sonhos desfeitos,
Onde se escoam os laivos da minha demência.
A breve trégua do sono é onde a dor recupera o fôlego,
E volta retemperada, voraz, com a sua bocarra hiante.
O tempo... o tempo é cada vez mais cinzento.
Pedro Mota
Antiga Cadeia.

Antiga Cadeia Municipal de Constância vai transformar-se em espaço cultural
Estão já a decorrer as obras de recuperação do edifício da antiga Cadeia Municipal, um imóvel localizado em pleno Centro Histórico de Constância.
Com um orçamento de cerca de 80 mil euros, um custo que será inteiramente suportado pelo orçamento municipal, esta empreitada terá um prazo de duração de aproximadamente quatro meses.
Pretendendo-se tornar o imóvel num espaço de índole cultural, a intervenção que agora decorre engloba a recuperação do imóvel mantendo a configuração, materiais e cores existentes, nomeadamente: reforço estrutural em betão armado ao nível da cobertura; picagens; rebocos; pinturas; substituição de cobertura e pavimentos; recuperação de madeiras, cantarias e serralharias; instalação de iluminação, climatização, segurança e rede estruturada (informática, telefones, som e projecção de vídeo).
Recorde-se que a antiga Cadeia do Concelho, situada na Rua Luís de Camões, é um edifício da grande relevância histórico-cultural que, após quase 100 anos na posse de particulares (o edifício foi arrematado em praça em 1914), retornou à propriedade e posse municipal na sequência de Despacho de 17-09-2007 do Tribunal Judicial de Abrantes sobre o processo de expropriação que foi desenvolvido pela Câmara.
Atendendo à localização privilegiada do imóvel e ao facto de provavelmente ser já o único edifício de arquitectura de matriz municipal que resta no nosso Concelho, o que lhe confere uma importância assaz singular do ponto de vista urbanístico no contexto do conjunto edificado do Núcleo Histórico de Constância, propõe-se o seu regresso à vida pública da vila, agora com uma utilização bem mais acolhedora, que abra as portas aos mais variados acontecimentos de índole cultural e lúdica – exposições, eventos, audições, colóquios e outras actividades –, dignificando o imóvel e constituindo-o, em simultâneo, como mais um pólo de interesse em Constância.
Por CMC
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Nudez .

nem ouro, nem prata.
árvore verde.
nu, esse teu corpo breve,
livre de sombras –
como no dia do baptismo.
ainda sem nome.
sem voz ainda –
e uma voz presente.
sem tempo,
propondo outro tempo
sem presente.
teu filho,
maior do que um rosto
quase escondido.
teu colo,
acolhendo o mundo inteiro –
o peso, a leveza,
a obscuridade, o brilho
da montanha.
não encontro negrume
nessa face.
somente a negra luz
do sal da terra,
no forno que aquece o coração.
fria, apenas a manhã
em que partimos –
o cume da manhã
sobre a nascente.
nem ouro. nem prata.
a cor e o calor da madeira.
os pigmentos dessa alma
hoje encobertos –
abertos neste livro
e neste lume.
Ruy Ventura.
III Feira de Primavera .

Parque Ambiental de Santa Margarida
16 e 17 de Maio, das 15.00H às 20.00H
Descrição sumária da actividade: Esta é uma iniciativa de carácter ambiental e cultural que tem como grandes objectivos: contribuir para a salvaguarda do património natural e cultural da região; promover alguns produtos de produção biológica, artesanal e doméstica; sensibilizar para uma relação positiva entre o Homem e a Natureza. Durante a Feira decorrerão as seguintes actividades:
Venda de produtos de produção biológica, artesanal e doméstica;
Actuação de grupos etnográficos;
Visitas guiadas sobre o tema “Etnobotânica”;
Jogos tradicionais.
Por CMC
Exposição de Pintura | Sofia Henrique .

Exposição de Pintura | Sofia Henrique
"Metamorfose"
A sala do Posto de Turismo de Constância tem patente ao público até ao dia 24 de Maio uma exposição de pintura intitulada METAMORFOSE, da pintora Sofia Henrique.
O tema dá-se com a transformação e a mutação interior e física do nosso SER e da nossa OBRA.
Esta exposição, METAMORFOSE, resulta de uma altercação interna da autora e do modo como deixa fluir as ideias sobre a tela. A pintura nasce tal como uma borboleta sai da sua crisálida, apanha sol e num bater enérgico das suas asas … expõe-se, numa transformação mais ou menos profunda.
Os interessados poderão visitar esta exposição no Posto de Turismo de Constância nos dias úteis das 09:30H às 13:00H e das 14:30H às 17:30H e aos Sábados, Domingos e Feriados das 14:30H às 18:00H.
Por CMC
Frases Mágicas.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Gritar !

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e
[escreviam
Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A acção simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim
Com um grito
Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Egoismo.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Êxtase.

Uma noite, ao canto de uma lua cheia,
cercado por estrelas
que reinam sobre a vasta escuridão
como uma pedrinha
longe na distância
meu coração saudoso
repousa sob tua sombra.
Sim, certamente
poderia ter-se perdido
no mar de todas as coisas,
mas seu brilho reflete
uma presença
que não pode ser vista impunemente.
Ressoam profundos desejos,
mantêm-se doces memórias,
como numa canção de ninar,
sempre cantarei teu nome junto ao meu,
como era para ser os nossos corações.
Felicidade, felicidade, felicidade
tudo o que era,
tudo o que não foi roubado,
e tudo o que poderá ser…
Como pétalas arrancadas cedo
pela fúria de uma tempestade,
ainda que seu talo sustenha uma flor
pode também esconder lágrimas
por um amor abandonado com desprezo.
A minha flor sobrevive ao inimaginável,
supera o banal,
desafia todos os temores e tristezas,
permanecendo aveludada,
aberta
encarando o céu
sempre.
Bianca Rossini
segunda-feira, 4 de maio de 2009
O Crime da Palavra;

Nenhum código, nenhuma instituição humana pode prevenir o crime moral que mata com uma palavra. Nisso consta a falha das justiças sociais; aí está a diferença que há entre os costumes da sociedade e os do povo; um é franco, outro é hipócrita; a um, a faca, à outra, o veneno da linguagem ou das ideias; a um a morte, à outra a impunidade.
Honoré de Balzac, in "O Contrato de Casamento"
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